domingo, 24 de maio de 2026

Sobre nitidez


Há um homem que vende nitidez

a quem chega com a vista cansada,

Como se ele soubesse enxergar. 

Mais sorte que competência em acertar seu próprio grau. 


Carrega cidades pequenas no bolso,

Além de boletos, promessas, distâncias,

e mesmo vivendo no ruído largo do mundo

conhece o silêncio das estradas interiores.


Há meses ele teima, não entende 

O porquê da ausência. E não aprende. 

Fala um idioma cruel:

entende tudo,

sem poder responder.


Mas ele lembra. Do detalhe. Do nome. Da data. 

Dele decifrando e esperando o mapa 

E lembra, às vezes,

Que esta e a única forma de continuar sendo ele mesmo. 

Nada 


Sobre as mulheres  que cruzaram suas esquinas tortas

umas viraram verso,

Outras prosa 

outras poema 

Alguma talvez cicatriz com nome próprio. 

Um problema. 



Teve quem fosse quase,

quem fosse espelho demais,

quem chegasse trazendo outro pela mão

e deixasse a madrugada à vazia. Com crase. 

Copo esquecido na mesa. Barco a deriva no cais. 

E ele fez disso palavra. Não mais seria em vão. 


E ele escreve

como quem abre o peito

sem pedir anestesia.


Pensa na métrica

Como quem maldiga a vida 

Sem temer ser heresia 

tentando encaixar o caos a esmo 

numa melodia possível, em poesia 


Entre a razão e a ilusão

— quantas vezes já disse —

mora seu endereço.


Dedilhado no começo,

acordes caindo depois,

e então o refrão cresce,

porque até a decepção

precisa subir de tom

para caber inteira na alma.


Há nele uma teimosia bonita:

a de seguir criando

mesmo quando o mundo desafina.


E talvez seja isso

o que mais define o vendedor de nitidez 

Que nada enxerga

Que não tem lucidez 


um homem que perdeu presenças,

mas não perdeu o gesto

Ainda transforma perda em beleza.


Como quem ajusta lentes

até que a vida, enfim,

volte a ficar nítida.

Um dia alguma lente o corrigirá. 

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