Há um homem que vende nitidez
a quem chega com a vista cansada,
Como se ele soubesse enxergar.
Mais sorte que competência em acertar seu próprio grau.
Carrega cidades pequenas no bolso,
Além de boletos, promessas, distâncias,
e mesmo vivendo no ruído largo do mundo
conhece o silêncio das estradas interiores.
Há meses ele teima, não entende
O porquê da ausência. E não aprende.
Fala um idioma cruel:
entende tudo,
sem poder responder.
Mas ele lembra. Do detalhe. Do nome. Da data.
Dele decifrando e esperando o mapa
E lembra, às vezes,
Que esta e a única forma de continuar sendo ele mesmo.
Nada
Sobre as mulheres que cruzaram suas esquinas tortas
umas viraram verso,
Outras prosa
outras poema
Alguma talvez cicatriz com nome próprio.
Um problema.
Teve quem fosse quase,
quem fosse espelho demais,
quem chegasse trazendo outro pela mão
e deixasse a madrugada à vazia. Com crase.
Copo esquecido na mesa. Barco a deriva no cais.
E ele fez disso palavra. Não mais seria em vão.
E ele escreve
como quem abre o peito
sem pedir anestesia.
Pensa na métrica
Como quem maldiga a vida
Sem temer ser heresia
tentando encaixar o caos a esmo
numa melodia possível, em poesia
Entre a razão e a ilusão
— quantas vezes já disse —
mora seu endereço.
Dedilhado no começo,
acordes caindo depois,
e então o refrão cresce,
porque até a decepção
precisa subir de tom
para caber inteira na alma.
Há nele uma teimosia bonita:
a de seguir criando
mesmo quando o mundo desafina.
E talvez seja isso
o que mais define o vendedor de nitidez
Que nada enxerga
Que não tem lucidez
um homem que perdeu presenças,
mas não perdeu o gesto
Ainda transforma perda em beleza.
Como quem ajusta lentes
até que a vida, enfim,
volte a ficar nítida.
Um dia alguma lente o corrigirá.

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