quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Sobre o improvável eu


Pudera ser só

Uma crise de meia idade

Ou pelo menos, maior: uma e meia verdade

 

À luz do sol,

de uma inteira, eu abro mão.

Lá dentro, eu sei:

Metade dela me daria razão


O espelho hoje

me mostra esse cansaço,

Maria me pede resposta

Já não tenho o compasso


Explicações

que há tempos não tenho

E o desespero

Se auto explica, se quiser eu desenho 



Daí pra cá, pra dentro,

um motor que não dá trégua.

Doces amores que eu tive,

e eu, o sal da entrega.


Bastava eu reconhecer,

tão comum, tão banal:

Mas eu to sempre em fuga,

Eu sempre Imoral



E talvez seja isso

que mais doa em mim:

Afinal, não foi o mundo

que me largou no fim 


Fui me deixando pra trás,

aos poucos, quieto…

como quem apaga a luz 

pra esconder o que não tá certo.


Confesso de forma atrasada

não tem volta, perdido está 

Como essa voz guardada,

Que insiste em semitonar


Eu falho em silêncio,

cresço onde não devia.

Ocupo demais o espaço

Onde eu nem gostaria 


E o tempo — o desgraçado —

cobra sem pressa, eu sei.

Mostra no rosto

o que eu já deixei.


Mostra no olhar

O que eu já não respondo 

Não dá pra disfarçar 

O que antes eu dizia sem pensar 


Eu não tenho um motivo,

um canto, nem pressa 

mas é sempre a fuga

que chega e dispersa 


E quanto mais eu corro,

menos eu me encontro.

Mais eu me apago,

mais eu morro


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